A fuga

A fuga

A estrada se estende à sua frente, negra, e os faróis semimortos agora fatiam sem dificuldade os restos da escuridão. Na pista estreita e em mão dupla, as curvas se sucedem num ritmo rápido, e de vez em quando dela se levanta uma névoa densa, como uma respiração. Com os nervos pulverizados e os braços doloridos, Samuel observa a faixa contínua ser engolida com voracidade pelo veículo, embora tente observar os limites de velocidade da via. Não quer mais nenhum problema e, sobretudo, não precisa de mais nenhum problema. Principalmente com algum patrulheiro metido a durão, desses que fiscalizam o trecho com suas motocicletas inglesas. Todos uns vermes traiçoeiros, que se escondem com seus radares móveis em meio à vegetação que cresce às margens do caminho.

Ao seu lado, com a respiração entrecortada, Melinda dorme um sono agitado e por vezes emite pequenos grunhidos indecifráveis. Samuel pensa que pode ser algum sonho, mas sabe que também pode ser a claridade pálida da manhã recém-rompida a fonte de sua angústia. De todo modo, ele sente uma ponta de ereção ao fitar suas coxas envoltas pela malha colante, mas a vontade de possuí-la, ali mesmo, logo se esvai quando as causas da fuga lhe assomam outra vez à mente. Naquela pequena guerra entre os hemisférios do cérebro a metade esquerda saiu triunfante, e o desejo desapareceu tão rápido quanto uma das placas que, sucessivamente, se perdiam no alcance do retrovisor.

Concentrado outra vez na estrada, ele sente que seus pensamentos ganham intensidade à medida que o dia chega, as pistas se tornando, gradativamente, cada vez mais cheias. Samuel sabe que precisa encontrar uma solução, mas não consegue divisar absolutamente nada. Mesmo tendo pensado naquilo durante toda a noite, sente-se atado, impotente diante da ineficiência de seus neurônios em achar uma saída. E no momento isso lhe deixa profundamente irritado.

Vira um pouco a cabeça e pousa rapidamente os olhos no pequeno relógio amarelo que pulsa no console central, ciente de que o tempo agora, definitivamente, era o seu pior inimigo. Quase sete da manhã, aquilo lhe soando um golpe seco, como um jab. Apalpa o bolso da camisa procurando os cigarros, enquanto abaixa uma fresta no vidro e acende o velho isqueiro de aço. No exato instante em que o habitáculo se enche de fumaça, ele se dá conta de ter invadido a pista contrária, os pneus guinchando, instintivamente, de volta à trajetória original. Sente um arrepio ao ouvir o grito sufocado de Melinda, que tateia em desespero sua porta buscando o comando elétrico da janela.

“Porra, Sam, que droga foi essa?”, os olhos ainda vermelhos, perdidos a meio caminho da realidade.

“Droga! Acho que me distraí acendendo o cigarro.”, ele respondeu com as mãos fixas no volante, os músculos da face contraídos.

Melinda abaixou o vidro sentindo a forte lufada de ar dissolver o que lhe restava do sono, os cabelos claros agora em desalinho. “Porra, e quem disse que você pode fumar aqui dentro? Você sabe que eu odeio o cheiro dessa merda!”.

Samuel suspirou fundo, as têmporas encharcadas de um suor frio. Aquilo era uma coisa que vinha lhe dando no saco ultimamente, aquela mania de Melinda em querer dar as cartas sempre. Isso lhes tinha causado a ruína. Afinal, por causa de quem estavam ali? Além disso, lhe irritava o fato de ela sempre iniciar suas frases com “porra” quando estava nervosa. Aquilo lhe parecia tão indelicado, tão… sujo.

“Sério, Melinda? Você acha que esse é o nosso maior problema agora?”, ele parecia com raiva. “Discutir onde eu posso fumar? Ou quando eu posso fumar um maldito cigarro?”.

Ela desviou os olhos arrependida, ciente do tom excessivo, e pousou a mão esquerda sobre a perna de Samuel. “Desculpe. Só acordei um pouco assustada. E toda essa situação… Pensei que o pior estivesse acontecendo.”, falou num sussurro. “Pode fumar, se tiver vontade. Não se preocupe comigo”.

Samuel jogou a ponta pela janela, pequenas fagulhas se projetando enquanto o filtro girava no turbilhão de ar. “Preciso parar um pouco. Ir ao banheiro e tomar um café.”, disse sem dar importância. “Dirigir esse tempo todo está me matando”.

“Será que não devíamos continuar?”, a voz de Melinda parecia aflita. “Também preciso ir ao banheiro, mas será que não podemos apenas parar no acostamento?”.

Jesus, Mel!”, Samuel retrucou. “A gente só precisa ser discreto. E não perder tempo. Felizmente, ainda existe alguma dignidade no mundo!”.

Melinda limpou os olhos em silêncio. Depois, sentindo um pouco de dor nas costas, pintou os lábios com uma cor neutra e ajeitou os cabelos com os dedos. Antes de descer do carro, uma parada de caminhoneiros no meio do nada, colocou os óculos escuros. Samuel abaixou um pouco o boné, a aba lhe encobrindo o rosto.

“Sejamos breves.”, falou. “E nos reencontramos aqui.”.

Quando retomaram a estrada, menos de dez minutos depois, o sol já demonstrava inclemência, e Samuel pensou que quando ele alcançasse o pino, na exata metade do dia, a temperatura ultrapassaria facilmente os trinta e seis graus. “Ainda bem que temos água agora.”, ele disse. “Pelo menos não precisamos parar outra vez mais tarde.”.

Melinda sorriu sem vontade, a expressão triste sem saber o que dizer. Ao mesmo tempo, sabia que precisavam conversar sobre a situação. Ela estava com medo. Muito medo. Mas apenas fugir assim, sem rumo, não lhe parecia uma solução sensata. Precisava conhecer os planos de Samuel, desvendar seus pensamentos e ver se eles tinham algum sentido. Na verdade, ela precisava de algo, sobretudo por não conseguir, por si mesma, pensar em algo sensato naquele momento.

“O que faremos, Sam?”, murmurou. “O que estamos fazendo?”.

Samuel lhe olhou rapidamente, os olhos perdidos numa sombra vazia, inseguros. No mesmo instante ela percebeu que nunca o vira assim, tão desarmado, como quem pressente o fim. Ele acendeu outro cigarro, os lábios frouxos deixando escapar muita fumaça.

“Eu não sei, Mel… Sinceramente.”, admitiu. “Tenho pensado nisso o tempo todo, e simplesmente não consigo encontrar uma droga de solução. Você… por acaso…”.

Antes que ele terminasse, Melinda balançou a cabeça negativamente, sentindo o ímpeto do choro se aproximar. Cobriu a boca com a mão, os dedos roçando o machucado ainda não cicatrizado no lábio inferior. Aquele golpe quase lhe arrancara alguns dentes, e era possível ainda senti-los oscilantes ao sabor da língua. A mucosa bucal, lacerada, deixava escapar um pouco de sangue, um fio fino que lhe dava à saliva um tom e um gosto corais.

“Não, Sam… Eu também não sei o que fazer…”, sua voz chorosa, quase inaudível.

Samuel imprimiu força máxima ao pedal do acelerador, o peito carregado de nuvens e de profundo temor. Ficaram em silêncio por algumas horas, quando ele enfim sentenciou: “acho que só nos resta mesmo a última saída.”.

Melinda lhe olhou em pânico, pálida contra a luz da lua que agora se infiltrava pelo para-brisa. Exausta, tinha dormido mais um pouco e, desesperada, precisava outra vez ir ao banheiro. No rádio, uma voz grave anunciava uma blitz policial poucos quilômetros à frente. “Você pode parar, por favor?”, perguntou, de algum modo desarticulando a notícia. “Preciso mesmo fazer xixi.”.

Samuel lhe olhou com desconfiança, ela sentiu. Talvez com indiferença. “Por que você não faz aí mesmo?”, ele falou. Quando seu corpo já relaxava, tomado pela resignação, ele encostou o pesado sedan preto próximo à vegetação que crescia às margens do caminho. Melinda desceu cautelosa e urinou, sentindo nas partes íntimas o vento morno, seco. Depois de vestir novamente a calça colante, se embrenhou no matagal e correu com todas as forças que lhe restavam. As folhas, e depois os galhos, golpeavam seu rosto com fúria na noite funda, rasgando-lhe a pela fina e castigando seu corpo frágil, mas ela prosseguiu até perder completamente os sentidos.

Ao se dar conta do que ocorrera, Sam arrancou o carro pensando que o melhor era seguir adiante. Ele também estava no seu limite, e precisava enfim descansar. Guiou por mais um tempo e tomou a primeira estrada vicinal, a cabeça latejando e os olhos já cheios de areia. Foi então que divisou a fachada tosca do motel, sua placa com luzes queimadas quase indivisível na escuridão. Deu seta, subiu as escadas de madeira e após conferir o quarto, antes mesmo de se lavar, adormeceu. Ressonando profundamente, não se deu conta do passar das horas, e seu rosto agora calmo, com uma aura pura, não ouviu as tábuas que lá fora rangiam baixinho. Ao som de passos que, sorrateiramente, sabiam de sua porta.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.

2 thoughts to “A fuga”

  1. A construção feita em cima do problema do casal que não conhecemos, funciona. Prende a gente. O texto é bom com alguns bons momentos de destaque. O final destoa um pouco do todo, tirando pontos que não chegam a comprometer a nota final. Bom.

    1. Obrigado, Wilson, pelo feedback! É sempre bom ouvir os comentários dos leitores! Os toques que vocês dão são fundamentais e auxiliam muito no processo de evolução da escrita. Continue prestigiando o Veia Literária! Em breve serão publicados novos textos! Abraço!

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