A Resistência - A Resistência

A Resistência

Para os amantes da boa literatura que andam à caça de um grande livro (apesar da diminuta extensão), a saída pode estar em A Resistência, de Julian Fuks. Editado pela Companhia das Letras e vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, a obra é, para além de uma bela trama, um exercício mesmo de reflexão acerca do fazer literário e de seu formato mais canônico.

Elegendo como tema central a relação mútua estabelecida entre seu irmão adotivo e a própria família, Fuks perpassa ao longo de um pouco mais de uma centena de páginas por questões candentes nos tempos atuais, como a opressão política e o isolamento dos indivíduos. Numa meta-reflexão que envolve a psicanálise e o exercício da memória (real ou imaginada, suposta), o autor nos brinda com um texto que aborda os tempos sombrios das ditaduras latino-americanas e nos faz conhecer os temores e dilemas de uma família inconformada a esse cenário de opressão. E nesse périplo, apesar de tudo e de todas as intenções, existem erros e acertos inerentes à própria condição humana.

Numa linguagem lírica, a um só tempo enxuta e sofisticada, Fuks de certo modo também questiona a estrutura magna do romance sem cair na auto-ficção, tão em voga graças ao escritor norueguês Karl Ove Knausgard. Ao longo de suas páginas o autor paulista enfatiza sempre a possibilidade do engano, da memória traída pelo inevitável passar do tempo, e com isso descreve seus personagens sem crueldade desnecessária e sem complacência vulgar. Seus personagens e seu enredo são, além de reais e familiares (portanto, caros), extremamente humanos. E isso faz valer cada palavra tão cuidadosamente colocada em seu preciso lugar.

A quem interessar, segue um trecho para degustação, palavras que falam a corações e almas sensíveis:

“Volto à origem do meu ímpeto: queria, creio, que o livro fosse para ele, que em suas páginas falasse o que tantas vezes calei, que nele se redimisse tantos dos nossos silêncios. (…) Agora não sei mais por onde ir. Agora paraliso diante das letras e não sei quais escolher. Agora sim, por um instante, posso sentir: queria que meu irmão estivesse aqui, a pousar sua mão sobre a minha nuca, a apertar meu pescoço com seus dedos alternados, tão suaves, tão sutis, a indicar a direção que devo seguir”.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.