Any girl loves dolls!

Any girl loves dolls!

A voz feminina soou pelos falantes da aeronave e solicitou a abertura das persianas. Lá fora o dia começava, os primeiros raios de sol perfurando a densa camada de nuvens brancas. O tempo estimado para o pouso era de quinze minutos, e Dalton pensou que talvez não morresse de desastre aéreo. Depois de outras informações acerca do clima e do horário, a tensão reduziu mais um pouco e suas mãos frias recuperaram um pouco de calor. Mas foi só quando as rodas tocaram o solo é que seus músculos relaxaram. Doloridos. Dormentes.

Depois de uma espera eterna, toda aquela irritação em várias línguas, finalmente as portas se abriram para o desembarque remoto. “Merda!”, sua impaciência veio em português, apesar do pouco uso nos últimos doze anos. E só então ele percebeu o coração aos trancos, ainda acelerado. Esperou a saída dos apressados e então se levantou, procurando no compartimento de bagagem sua velha mochila militar. Com a saliva ainda grossa, os dentes sem escovação, ocupou o último lugar disponível no fundo do ônibus que partia rumo ao terminal.

Depois de recolher as duas malas na esteira e passar pela Receita Federal, o silêncio em sua mente foi rapidamente engolido pelo tumulto do saguão. Letreiros piscantes, pessoas com placas à espera, cheiro de café misturado com perfume e loção pós-barba, burburinho confuso e assédio dos motoristas de taxi. Ninguém da família se interessou em ir lhe buscar, e ele trazia no bolso, amassado, um pedaço de papel com o endereço da irmã. Tinha também um irmão, mas os dois não se davam desde a morte da mãe.

Ela, a irmã, morava longe, na periferia da cidade, e de todo modo não lhe ofereceu hospedagem. Ele, Dalton, não tinha nenhuma razão pra procurar o irmão. Então se informou com a mulher do balcão de orientações ao turista como chegar ao centro de ônibus.

“Olha, tem um que sai daqui e vai direto pra rodoviária”, disse ela, os olhos verdes destacados pelos cílios alongados e pretos. “O ponto é bem aí em frente, depois do estacionamento. E o preço é ótimo!”, concluiu unindo o polegar e o indicador da mão direita, os outros três dedos levantados.

“Ok. E você me indica algum hotel lá no centro?”, Dalton perguntou. “Algo assim mais… em conta?”.

“Bom, no momento nós estamos recomendando o Plaza Tropicália”, respondeu Sibele, o nome e a foto no crachá. “É um excelente quatro estrelas com tudo incluso, suítes com varanda e vista pro parque municipal”. Dalton pensou que ela devia levar algum por fora pra indicar esse ou aquele hotel, e balançou a cabeça devagar.

“Já que é esse que você indica, é nesse que vou ficar!”, piscou um olho e lhe ofereceu seu melhor sorriso. Quando já ia agradecer, Sibele lhe estendeu a mão, um papel que solicitava algumas informações e uma caneta.

“Ótima escolha!”, falou. “O senhor poderia apenas preencher esse cupom com os seus dados? É que o Plaza Tropicália está com uma promoção incrível! Quem se hospedar lá, por indicação do nosso balcão de informações, estará concorrendo a uma inesquecível viagem para o parque da Disney, na Flórida!”. Lágrimas de emoção quase lhe saltaram dos olhos e Dalton pensou que isso seria ruim. Aqueles lindos olhos verdes borrados pela mistura de lágrimas e rímel.

“Claro! Sem problemas…”, respondeu já arrependido de dar falsas esperanças pra Sibele. Obviamente, ele não se hospedaria em nenhum Plaza qualquer coisa. E coitada, talvez ela precisasse mesmo dessa comissão. Mas ele precisava mesmo de um hotel mais em conta, sem nenhuma estrela se possível. Aquela viagem já lhe lambera as economias, e talvez ele nunca mais pudesse voltar à Disney. Informou os dados solicitados, agradeceu e foi embora, pensando que na rodoviária certamente alguém indicaria o lugar ideal.

O ônibus era confortável, com ar-condicionado e música ambiente, e Dalton pensou que há dez anos aquilo era impensável. A estrada de acesso ao centro também era ótima. Um tapete negro bordado com linhas brancas e amarelas, sinalização bilíngue e limites elevados de velocidade. As coisas pareciam ter mudado mesmo durante o período de sua ausência.

Aos poucos, porém, o ônibus foi entrando na cidade, as paredes pichadas se revelando, incógnitas. A roda bateu em um buraco e Dalton acordou de sobressalto. No semáforo um garotinho jogava bolas para o céu, os motoristas indiferentes mexendo em seus smartphones. E daí em diante, daquele engarrafamento inicial até o centro sujo da cidade, até o prédio torto da rodoviária, a realidade retrocedeu no tempo. Ali lhe indicaram o Majestic, um hotel na antiga região do meretrício, um prédio cinzento perdido entre outros também apagados pela fuligem. E Dalton desapareceu no meio da multidão, arrastando com dificuldade as duas malas, nas costas a velha mochila militar.

O quarto era simples. Uma cama, um pequeno móvel para guardar as coisas, na parede uma pequena televisão. De tubo. As toalhas eram brancas e até cheiravam bem, apesar do mofo no banheiro. Dalton tomou um banho rápido e desceu para comer alguma coisa, e quando voltou se sentia muito bem. Depois caiu na cama e adormeceu, a TV ligada transmitindo, durante a madrugada, um velho programa de entrevistas.

Acordou cedo no dia seguinte sentindo-se renovado, apesar do leve desconforto intestinal. Explorou um pouco o centro matando a saudade dos tempos antigos e se reencontrou, quando jovem, frequentando os bares da capital. Comprou algumas coisas sem propósito, observou os carros modernos, os prédios novos e relembrou a cerveja gelada ao extremo. Depois voltou para o hotel e se arrumou com cuidado, escolhendo a melhor roupa e seu melhor par de óculos. O cabelo atentamente alinhado com pomada modeladora. Vasculhou o bolso da calça à procura do endereço da irmã, pegou o pacote e pediu ao cara da recepção que chamasse um taxi. Aquele era um grande dia.

No banco de trás do Siena branco, com o embrulho de presente sobre os joelhos, o rádio subitamente lhe deixou nostálgico. Ele, que há poucos instantes nem se lembrava de Belchior, agora se sentia o verdadeiro rapaz latino-americano. Fitou o papel colorido, suas inúmeras letras dizendo happy birthday, e pensou em Duda. Como estaria a filha de sua irmã? Da última vez que a vira, numa foto, ela ainda era um bebê, carinhosamente aninhada nos braços da falecida avó. Hoje ela completava dez anos, e por isso ele estava ali, apesar do convite indiferente da mãe. E Dalton sentiu que havia perdido algo, talvez irrecuperável.

O carro avançava rápido quando quase colidiu com uma moto. O piloto fez um gesto obsceno e o motorista praguejou: “Esse trânsito tá cada dia pior e a cidade abandonada ao deus-dará! Uma violência, uma mortandade que dá medo!”, emendou. “Sem falar nesses motoqueiros. Todo mês é um retrovisor!”. Dalton resmungou qualquer coisa e se voltou outra vez ao presente, agora sentado ao seu lado. Como escolher alguma coisa pra uma criança, ainda mais se nem a conhecia?

Se lembrou do sábado em que visitou várias lojas de departamento tentando pensar em algo, um presente a um só tempo capaz de marcar sua presença e justificar sua ausência. Só que o orçamento escasso lhe impunha sérios limites. Pensou em levar uma roupa ou algo do tipo, mas não sabia exatamente o tamanho. Depois pensou em levar algum doce, talvez uma caixa desses chocolates raros, mas não sabia se a menina estava acima do peso, como a mãe sempre costumava estar. Não falava muito com a irmã, e quando conversavam rapidamente ao telefone, não recebia muitas informações sobre a garotinha. Decidiu, por fim, levar uma dessas bonecas com casa e tudo. Com namorado, carro e secador de cabelo. Uma nota! “Licenced product!”, lhe disse o vendedor. Mas não tinha como Duda não gostar. “Any girl loves dolls!”, ele lhe garantiu. Agora ali, desamparado e só, esperava ter feito a escolha certa.

Quando o taxi parou em frente ao endereço ele pensou que houvesse um engano. Silêncio. Nada de crianças correndo em volta da casa. Nada de carros estacionados na rua. Nada de balões coloridos na fachada simples ou de cachorro latindo no portão. Conferiu o papel amassado, úmido em suas mãos e desceu. Tocou a campainha três vezes, antes que a irmã aparecesse na janela.

“Oi, Dalton. Pensei que você não vinha”, disse ela descendo a escada pra abrir o portão. “Já que veio, entra, vai”.

Deu-lhe um abraço estranho, uns tapas nas costas como se fosse um cumprimento, mas nada que indicasse saudade. Guiou-o para os fundos, para o quintal, onde umas mesas de plástico e algumas cadeiras se exibiam sem qualquer decoração. Entre o portão da entrada e o quintal Dalton notou as roupas espalhadas pela casa, o cheiro ácido do banheiro, a cabeça de uma criança vendo alguma coisa na TV. Nos fundos, “onde a festa tá rolando!” segundo a irmã, Clay já parecia semimorto, os olhos perdidos no além. Clayton, ex-marido de Denise e pai de Duda, pelo jeito continuava queimando a largada quando o assunto era bebida. Um hábito difícil de mudar. Do outro lado do quintal, de pé com um cigarro espremido na boca e um copo de cerveja na mão, Murilo sequer se deu ao trabalho de disfarçar sua hostilidade.

“Então o filho pródigo resolveu aparecer!”, rosnou procurando nos bolsos alguma coisa, um isqueiro talvez. “Aproveite a festa, babaca!”.

“Olá pra você também, Murilo…”, apenas disse. Sem nenhum abraço. Nenhum aperto de mão.

Mais uns passos naquele ambiente pantanoso e Dalton ficou aliviado quando Roberta lhe jogou uma boia de salvação. “Dalton! Quanto tempo!”, falou num abraço afetuoso. “Saudades de você, moço! Tá tão bonito… O tempo lhe fez bem!”.

A namoradinha dos tempos de colégio parecia velha, com rugas nos cantos da boca. Ele reparou no copo de cerveja descansando na frente dela, intocado. Fez uma brincadeira sobre isso, mas ela não bebeu. Havia virado evangélica. Conversaram inutilidades sobre a vida, ela casada e mãe, ele solteiro e trabalhando num restaurantezinho em Atlanta. Lembraram os tempos em que voltavam da escola juntos até a linha do trem, onde cada um pegava seu próprio caminho. Ele achou melhor não dizer nada sobre os beijos desesperados que trocavam atrás do vagão estacionário e nem mencionou o dia em que fumaram maconha pela primeira vez, perdidos na escuridão da linha férrea. As pessoas costumam se esquecer dos próprios pecados. Por fim, concluíram que a vida seguiu.

“Onde está a aniversariante?”, Dalton se virou para a irmã, a cara vermelha só com duas doses. “Eu trouxe um presente pra ela!”. Denise gritou alto, sem educação, e ele se emocionou quando viu os olhos da sobrinha pela primeira vez. Assim, ao vivo. Olhos castanhos grandes, vivos, idênticos aos da irmã quando criança. Os braços e as pernas eram finos e pareciam frágeis. O ventre um pouco pronunciado e os cabelos encaracolados davam um ar de inocência, que contrastava com a roupa curta, justa demais. A pesada maquiagem pouco infantil.

“Esse é o seu tio Dalton, filha”, Denise falou. “Ele veio dos Estados Unidos só pro seu aniversário. E trouxe um presente muito legal pra você!”.

“É lá que vive o Bob, mamãe?”, perguntou a menina, pouco interessada no completo estranho à sua frente.

“Sim, Duda, é lá mesmo que vive o Bob”, ela respondeu com certa irritação. “Mas olha só o que o tio Dalton trouxe pra você!”. Ele lhe estendeu o pacote sem saber ao certo como se portar. Quis dar um abraço, mas tudo parecia tão… inapropriado. “Vamos! Abre!”, apenas disse.

Enquanto a menina rasgava o embrulho Dalton perguntou quem era Bob, e antes que Denise pudesse responder, a voz aguda de Duda encobriu o barulho do papel. “Ele tem uma banda, e eu amo ele!”. Sem entender, ele olhou pra irmã, que sacudia a cabeça negativamente.

“É um menino aí, de um filme que ela gosta. Coisa da cabeça dessa menina”.

Aos poucos a caixa excessiva foi se revelando, toda a sua superfície escrita em inglês. Duda conferiu as imagens que davam pistas do conteúdo interno. Uma boneca, seu namorado, um carro, um pequeno salão de beleza. Virou a embalagem nas mãos várias vezes, os olhos sem qualquer expressão. “Ah…”, foi tudo o que disse, deixando de lado a caixa ainda envolta pelo plástico. Virou as costas e voltou correndo para a televisão, deixando Dalton desconcertado, o cenho franzido.

“O que foi? Será que ela não gostou?”, tentou encontrar algo no rosto da irmã.

“Claro que não gostou!”, Denise respondeu. A testa tensa, o tom de voz, tudo deixando entrever certa raiva.

“Mas qual o problema com a boneca?”, ele perguntou aflito. “Lá nos Estados Unidos isso é tão caro! E todas as garotas adoram bonecas!”, a frase do vendedor lhe vindo à mente num consolo. Denise encarou o irmão por um tempo e algumas lágrimas lhe vieram aos olhos. Ele logo pressentiu o rancor.

“Ela já tem essa droga de boneca!”, a voz embargada. “Exatamente igual!”.

Apesar de não saber o que dizer, Dalton tentou a possibilidade de trocar o brinquedo. Ainda não havia chegado à conclusão quando a voz da irmã lhe interrompeu. “Poxa, Dalton, uma boneca? Só isso, uma boneca?”.

“O que tem de errado com ela? Podemos tentar alguma…”, mas novamente não conseguiu completar seu pensamento.

“Porra, Dalton! Você pensa o quê? Que a Duda não tem brinquedo? Que a gente é miserável”, Denise falava alto, nervosa. “Você nem veio pro enterro da mamãe, caralho!”. Ele percebeu naquele instante o efeito do veneno instilado pelo irmão. Olhou em volta e tentou falar, as palavras lhe faltando, subitamente órfão.

“Na época eu estava desempregado e não podia…”, mas já não adiantava terminar.

“Eu disse que não valia a pena, Denise!”, a voz de Murilo veio clara, sonante. “Esse babaca não liga pra ninguém!”.

Dalton sentiu as pernas fracas, a respiração difícil quando Denise agora quase gritava. “Você não conhece a própria sobrinha, seu egoísta! Você acha que ela queria o quê? Que ela sonha com quê?”.

“Não sei. Eu só pensei que…”.

“Ela esperava pelo menos uma viagem pros Estados Unidos, droga! Eu queria uma viagem pros Estados Unidos, junto com ela!”, os golpes sem pausa, cruéis.

“Do que você está falando?”, Dalton parecia subitamente tonto, talvez não querendo acreditar. Os olhos de Denise estavam mais escuros, turvados.

“No mínimo um tablet, babaca! No mínimo!”, Murilo também queria bater um pouco mais. “Você devia ter vergonha de decepcionar sua única sobrinha!”.

Ele sentiu a face corar, as bochechas entregando a vergonha que tanto queria esconder. Se levantou desnorteado, a expressão triste, buscando na memória algo em algum lugar. Não sabia exatamente o que era, mas podia ouvir o estalo de qualquer coisa que se partia.

Tantos anos fora do Brasil, tantos anos ignorando a gente, e você só traz a merda de uma boneca? Ela já é mocinha, cacete!”, Denise bateu o punho cerrado na mesa, o copo de cerveja da Roberta finalmente vazio.

“Acho melhor eu ir”, disse Dalton sentindo-se covarde, um soldado que chora diante do próprio pelotão de fuzilamento.

“Melhor mesmo, babaca!”, alguém deu o tiro final. Talvez Murilo, talvez Denise. O tom e a voz lembrando Roberta. Dalton desceu a escada frontal e chegou à rua, pensando que talvez algum taxi pudesse lhe salvar daquele lugar e de sua violência iminente. Mas pelo avançar das horas, sabia que havia pouca esperança. Provavelmente, a violência já era inevitável. Por sorte, o passaporte estava no quarto do hotel.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.