Golias

Golias

Envolto pela escuridão do corredor, Bernardo parou por um instante na porta da sala, observando a iluminação que lá dentro mudava conforme as luzes da televisão. Seu pai, recostado no braço direito do sofá, parecia concentrado no debate do canal de esportes, onde uns caras muito exaltados vociferavam seus argumentos.

“É óbvio que o juiz errou nesse lance! E isso mudou a história do jogo!”, o careca mais velho quase histérico, as veias do pescoço saltadas.

“A história do jogo não! Do campeonato!”, sentenciou o outro, com pinta de playboy. “Vocês vão ver se esses pontos não irão fazer falta nas rodadas finais.”.

O rosto de Miguel às vezes se tornava visível com os lampejos súbitos da tela, revelando suas rugas contorcidas numa expressão de concordância. Na mesinha de ferro ao lado do sofá, algumas garrafas de cerveja se amontoavam de maneira desordenada, uma delas ainda pela metade, já provavelmente quente. Diante daquele cenário, Bernardo hesitou por alguns instantes, mas logo a música de encerramento do programa deixou tudo tarde demais.

“O que você tá fazendo aí, que nem assombração?”, a voz do pai meio arrastada, pastosa. “Pega mais uma cerveja pra mim e senta aqui com o seu velho.”.

Bernardo girou nos calcanhares e sumiu pelo corredor, retornando pouco depois com uma garrafa gelada e mais um copo na mão. Não tinha o hábito de beber, ainda mais no meio da semana. Ainda mais com o seu pai. Desde a morte da mãe, entre os dois parecia boiar sempre um cessar-fogo frágil, uma espécie de trégua precária fadada ao fracasso. Ainda assim, sentou-se no canto oposto do sofá, serviu-se e passou a cerveja para o velho, a espuma chiando baixo e o top de cinco segundos fazendo subir um pouco mais a tensão.

“Algum problema, moleque?”, Miguel lhe olhou rápido, sem muito interesse. “Vai, desembucha! Mas se for pra pedir dinheiro, nem precisa começar! O carro também não!”.

Por que as coisas sempre foram assim entre nós, Bernardo pensou, essa animosidade sem razão, sem fundamento? Talvez fosse melhor deixar pra lá, desviar a conversa pra outra direção. Apesar de ter pensado muito no assunto sabia que o velho não se deixaria convencer, e menos ainda daria sua benção. Mesmo assim, limpou a garganta.

“Então, pai, tenho pensado numa coisa… Numa possibilidade aí…”, as palavras se perdendo no gosto amargo da cerveja, salobra.

“Hum… E que possibilidade é essa?”, a voz do pai urgente, como se buscasse um atalho capaz de encurtar o caminho de volta ao canal de esportes.

“Então… Como não tô conseguindo um emprego aqui, e como também não posso fazer faculdade, tô pensando em uma coisa diferente. Talvez o senhor ache estranho, mas…”, e fez um gesto com a mão, o final da frase em aberto, a meio palmo do chão.

“Estranho como?”, a impaciência agora mais clara, quase uma lufada quente. “Não me venha inventar histórias, heim moleque!”.

Bernardo sabia que se continuasse, daquele ponto em diante não haveria mais volta. Seria como a pedra atirada, a vidraça em sua trajetória. Mas não podia refugar agora, não se quisesse mesmo mudar as coisas. Não suportava mais viver à sombra do pai, naquele lugar tão sem perspectivas, rememorando a morte da mãe. Além disso, queria se ver livre de umas merdas aí, a maior delas talvez o próprio alcoolismo do velho, essa sua aversão sequer disfarçada em relação ao próprio filho. Mas tinha também a Aline, aquela relação entre os dois que nunca daria em nada, e o Tales, que vinha lhe cobrando umas dívidas de jogo. As coisas realmente poderiam sair do controle a qualquer momento. Endireitou um pouco a postura, tentando aliviar a tensão dos ombros.

“Tô pensando em ir embora, pai”, procurou ser breve, a ideia lhe soando clara e plena de sentido. Depois continuou. “Já estou com vinte e um anos. Acho que é mesmo hora de ir.”.

O pai girou lentamente o corpo no sofá, como se aquilo lhe interessasse de algum modo. Deu um gole longo na cerveja e limpou a boca com as costas da mão esquerda, os olhos estreitos e vermelhos por trás dos óculos.

“Não digo nem que sim, nem que não”, falou. “Mas ir embora pra onde? Pra fazer o quê? E o mais importante: com que dinheiro?”, metralhou.

Bernardo olhou para as mãos, a data de validade gravada no fundo do copo, a cerveja já sem nenhuma espuma. O senso crítico do pai era implacável, como se ele próprio nunca tivesse cometido nenhum erro na vida. Com isso, o velho não gostava dos planos alheios e em qualquer situação só enxergava a desgraça em potencial, as possibilidades de fracasso. Aquela era outra merda da qual precisava se livrar.

“Tô pensando em ir pra Portugal, pai”, novamente foi breve, o rosto do velho se apagando enquanto o silêncio se sentava entre eles. Nenhum ruído, nem mesmo da televisão, como se subitamente fora do ar. Após uma longa pausa, a voz do pai veio outra vez, indefinida.

“De onde você tira essas ideias, Bernardo?”, o filho tentando identificar o seu tom. Incredulidade? Indiferença? Sarcasmo? “De onde você tira essas coisas, me diz?”.

“Não sei, pai”, Bernardo experimentou, a garganta seca pedindo outro gole de cerveja. “Venho pensando nisso faz um tempo… E como as coisas não estão bem por aqui, pensei em ir pra um lugar melhor.”.

A fúria do pai precisava apenas de um canal, de um caminho estreito pra subir das profundezas à superfície. E aquelas palavras lhe abriram todas as comportas.

“Como assim ir pra um lugar melhor, porra? O que é que está ruim aqui, seu moleque?”, um pouco de saliva se projetou no ar, a baba se acumulando nos cantos da boca. “Essa casa não lhe agrada mais, ingrato?”.

Bernardo suspirou e secou a palma das mãos na calça jeans, uma de cada vez. Queria que a mãe estivesse ali, não essa sua ausência preenchida pelo conflito. Tentou ser mais claro, minimizar os danos.

“O que está ruim é o país, pai! Não tem emprego pra ninguém aqui. Por isso pensei em ir pra um lugar melhor. Em termos de trabalho, entende?”.

“E quem te disse que Portugal é um lugar melhor, moleque?”, ele não se dobraria. “O que você sabe sobre a merda de Portugal?”.

“Não sei muito”, Bernardo murmurou. “É só que o Serginho foi pra lá já tem um tempo, e até agora não voltou. Talvez as coisas lá estejam melhores.”.

“Que Serginho? Quem porra é Serginho?”, Miguel subiu a voz, os olhos injetados de sangue.

“Calma, pai! Só estamos conversando, ok?”, o desastre parecia inevitável. “Será que as coisas podem ser diferentes, pelo menos uma vez?”.

“Quem porra é Serginho?”, o pai repetiu. Surdo, talvez.

“O Serginho, do futebol. Sérgio Sampaio o nome dele. Amigo nosso lá das peladas…”.

O velho soltou uma risada histriônica, o suor lhe molhando um pouco os cabelos brancos. O hálito alcóolico preencheu a sala.

“Então você quer ir pra Portugal por que um amigo seu foi pra lá? Esse tal Zezinho, vagabundo de pelada?”.

“É Serginho, pai!”, ele ignorou a ironia, o comentário depreciativo. “E não é um amigo mesmo. Tá mais pra um colega. Mas ele deve estar bem lá, pra não ter voltado.”.

“Presta atenção numa coisa, moleque!”, o pai lhe apontou o dedo, autoritário. “O que você sabe dessa merda de mundo? Qual o lugar mais distante que você conhece?”.

“Não sei, pai! Acho que Caxambu, sei lá. Numa excursão da escola…”, Bernardo respondeu, se lembrando imediatamente de um réveillon no Rio. Mas isso pouco importava para o rumo da conversa.

“Então que palhaçada é essa de ir pra Portugal? Com que dinheiro, caralho?”, o lábio inferior do velho tremia. “Eu sou aposentado pelo Gabinete Militar. Eu poderia pensar em ir pra Portugal. Sua mãe, com o dinheiro das costuras dela, poderia ter ido pra Portugal! Mas você, que nunca trabalhou na vida?”.

Bernardo pensou que o pai poderia ter um colapso a qualquer momento. Intimamente desejou isso, mas nada aconteceu.

“Claro que já trabalhei, pai. E tava pensando em vender a moto pra ir embora. Ela deve valer algum dinheiro…”.

“Ah, aquilo! Frentista de posto!”, Miguel bateu a mão espalmada no braço do sofá. “Trabalho! E quanto tempo você acha que dá pra viver com o dinheiro de uma merda de moto?”.

Bernardo virou o rosto pra porta da sala, arrependido de ter entrado, e balançou a cabeça de um lado para o outro. Era uma luta vã. Seria mais fácil se ele apenas fosse. Se vendesse a moto e conseguisse a droga do passaporte. O pai, certamente, nem daria por sua falta. E se desse, na melhor das hipóteses estaria bêbado. O velho se levantou e foi à cozinha, os passos bambos farejando mais uma cerveja. Voltou com a cara vermelha, a expressão vazia de consciência.

Portugal!”, repetiu. “E o que você ia fazer com a porra do Golias?”.

Bernardo sabia que a conversa chegaria àquele ponto, o pai que sempre odiara o cachorro e restringira toda sua vida ao minúsculo quintal.

“Eu teria que deixa-lo aqui, pai. Me disseram que as empresas não transportam cães como o Golias.”, respondeu cabisbaixo.

“Então tem mais essa!”, o velho passou as mãos pelo rosto. “Você ainda ia deixar esse maldito cachorro pra eu cuidar! Você deveria se envergonhar!”. Acidentalmente, bateu a perna na mesinha de ferro e derrubou uma das garrafas, estilhaços e cerveja se espalhando pelo chão. “Você se lembra do que me prometeu, quando eu te dei esse maldito cachorro? Heim, moleque?”.

O pensamento de Bernardo voltou à infância, aos oito anos de idade, quando andava pelos corredores do Mercado Central segurando a saia da mãe. A sombra do pai, à frente, ignorava-os. Lembrou-se de ter começado a chorar quando viu os pequenos filhotes expostos numa grande caixa forrada com jornal, que fedia a urina. Quase podia ouvir outra vez o burburinho de vozes misturadas, o passo estancado e a vontade de morrer ali mesmo caso não ganhasse um cachorrinho. A mãe, abaixada à sua frente, segurava suas mãos.

“Meu bem, você não pode ter um cachorro… Seu pai não deixa.”, seus olhos pareciam banhados de tristeza e medo. “A mamãe também gostaria de ter um cãozinho, mas nosso quintal é tão pequeno… E seu pai não gosta de animais.”.

“Mas eu quero, mamãe!”, Bernardo protestava entre soluços. “Não quero mais nenhum presente na vida! Só quero um cachorrinho!”, a garganta quase bloqueada pelo choro, o nariz muito molhado.

“Mas meu bem, o seu pai…”, ela não terminou a frase. Uma pequena multidão se formava, piedosa, o vendedor oferecendo um desconto “pra agradar o menino.”. O rosto do pai cresceu, rubro e quente de raiva.

“O que você tá pensando, seu moleque?”, a mão já em riste, o tapa em gestação. A mãe, no calor da situação, o impediu, a voz suplicante.

“Bate nele não, Miguel. Tadinho! Dá pra ele um cachorrinho. Ele tá indo tão bem na escola… Faz essa vontade dele, por favor!”.

O pai pareceu ofendido, sua autoridade publicamente desafiada. O diabo eram tantos olhos acompanhando a situação, a lhe inibirem os impulsos. E os pulsos. Ele se virou para o vendedor, que insistia no desconto.

“A questão aqui não é dinheiro, não! Vê se não se mete!”, rosnou com ódio, voltando-se em seguida para Bernardo. “Olha só, moleque, que eu vou falar só uma vez! Você tá me fazendo passar vergonha com essa sua birra!”. O filho, encolhido, tremia. “Se eu te der essa porcaria de cachorro, é você quem vai cuidar dele, tá entendendo?”.

No peito do menino crescia uma estranha sensação, confusa. O medo do pai obliterado por um relance de felicidade. As maças do pequeno rosto, molhadas, assentiram.

“Se você não cuidar dele um dia, um dia sequer, eu me livro dele! Tá entendendo?”.

Bernardo novamente aquiesceu, as mãos da mãe carinhosamente pousadas em seus ombros. Miguel se levantou e encarou a esposa, os olhos cheios de ira.

“E quando a gente chegar em casa, vamos terminar essa conversa.”.

No caminho de volta, Bernardo fitava o cãozinho pelos buracos da caixa de papelão, e o animal arfava com a sede e o calor a lhe fustigar o focinho úmido. Sentia-se como nunca antes em sua vida, uma alegria que até então não conhecia. A mãe, com voz suave, lhe perguntou qual seria o nome do cachorrinho.

“Podíamos chamá-lo de Golias, mamãe. Que nem o gigante da bíblia!”, o menino respondeu feliz. Os olhos dela sorriram.

“Golias é um lindo nome, meu amor.”.

Naquela noite Bernardo adormeceu sentado no quintal, exausto. Golias, ressonando baixo entre suas pernas finas, também dormia quando levaram o menino para a cama. Entorpecido de felicidade e sonho, ele quase não percebeu o rosto inchado da mãe, as manchas escuras, azuis ao redor dos seus olhos, que ainda assim sorriam.

Quando voltou à realidade, Bernardo percebeu que o pai agora dormia, finalmente vencido pela embriaguez. A cabeça pendendo para o lado, a posição pouco confortável, o copo vazio largado no canto do sofá. Ajeitou como pôde o corpo do velho com uma almofada, desligou a TV e pensou que talvez fosse melhor assim.

Depois de um banho rápido, que lhe lavou umas lágrimas salgadas de frustração, foi para o quarto e encarou por muito tempo um pedaço do teto que recebia a luz da lua. Quando enfim adormeceu, teve um sonho lúgubre que o fez se revolver na cama. Nele, Golias se alimentava das vísceras do pai, num espetáculo grotesco de sangue e baba. No dia seguinte, ele já não mais respirava.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.

2 thoughts to “Golias”

  1. Oi meu amigo… Primeiro, de tantos outros texto que irei ler escrito por você. Adorei o retrato e recorte que faz de nossas tão possíveis famílias. Obrigada pela leitura. Abraços, Gabi.

    1. Obrigado, Gabi! Pois é… Nossas tão possíveis e bastantes famílias… Que bom que você gostou do conto! Continue acompanhando o Veia Literária! Abraço!

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