O divórcio

O divórcio

Mathias acordou um pouco tarde naquele domingo. Também estava um pouco mal humorado, talvez pelo excesso de bebidas da noite anterior. Pensou que poderia estar bebendo além da conta desde o divórcio, mas logo deixou esse pensamento de lado. Precisava tomar um banho e se aprontar rápido, caso não quisesse dar mais explicações durante o almoço. Em menos de uma hora trancava a porta que dava pra rua, depois de repor a ração e a água do cachorro que vivia no quintal. Seu rosto ardia um pouco, por causa do prestobarba velho e da loção que já estava vencida, mas sentia-se devidamente bem cuidado. Na medida certa para não aparentar desleixo.

Desceu a rua vazia por volta das onze e quarenta da manhã, e quando chegou ao ponto sentiu sua irritação crescer ao descobrir que o próximo ônibus só passaria dentro de vinte minutos. Mexeu um pouco no celular, tentando encontrar algum jogo que lhe ajudasse a lidar com isso, mas subitamente percebeu que estava envelhecendo. Além disso, tinha de prestar atenção ao ambiente à sua volta, já que aquela rua não era exatamente segura e ele não estava podendo se dar ao luxo de comprar um telefone novo. Resolveu acender um cigarro enquanto esperava, pois nunca fumava na frente de seus pais e só poderia fumar novamente no final do dia. De todo modo, eles achavam que Mathias tinha parado.

Não chegou a tragar muitas vezes e sentiu certa impaciência ao ver seu ônibus dobrando a esquina, atrasado ou adiantado em mais de dez minutos. Pensou na máxima de que cigarros chamam ônibus enquanto dava sinal com a mão direita e deixou mais da metade dele rolar pelos dedos e cair em cheio dentro do bueiro. Sempre jogava suas guimbas em bueiros, por lhe incomodar a ideia de que alguém poderia pegá-las e continuar fumando. Como não podia perder mais nenhum tempo, entrou assim que o motorista lhe abriu a porta, indiferente ao seu “bom dia”.

Já dentro do ônibus, foi se dando conta de várias coisas. Desde que os trocadores continuam a perguntar por dinheiro trocado até o fato de ter engordado, pela dificuldade em vencer a catraca. Sua bunda também parecia mais gorda, a julgar pela falta de conforto na cadeira próxima à porta traseira. Em poucos minutos percebeu que estava completamente desabituado com aquilo, e que não andava de transporte público há quase dez anos. A última vez tinha sido em Madrid, na lua de mel com Alice, e pelas suas lembranças os coletivos de lá, mesmo naquela época, pareciam melhores.

Conformado com tudo o que lhe parecia reservado naquela manhã de domingo, começou a pensar nela e em toda a sua filha-da-putagem. Afinal, só estava ali porque no divórcio ela conseguiu o direito de ficar com o carro e com tudo o mais que tivesse algum valor. Não que o patrimônio que construíram tivesse grande relevância, mas não fosse aquele advogado habilmente desgraçado, agora poderia estar dentro de seu ex-Peugeot, no ar-condicionado e ouvindo qualquer coisa no rádio. Também talvez não tivesse precisado sair com tão pouco de seu antigo sobrado – basicamente suas roupas e livros – tudo embolado com indisfarçada má vontade dentro de três malas fodidas e que também um dia estiveram em Madrid. De quebra ficou responsável pelo cachorro, um rottweiler de onze anos já meio surdo e pouco empenhado na guarda e proteção. Não que ele não gostasse do Al Capone, mas com a velhice ele já dava muita despesa. E isso era algo que Alice não queria, mesmo ela tendo conseguido se tornar a merda da coordenadora de enfermagem na fundação hospitalar do Estado.

Desde o divórcio ele vinha tentando entender suas verdadeiras razões. Não dava pra acreditar naquele papo batido que ela tentou lhe mandar, aquela estória de que “não é você, sou eu”. A vida sexual dos dois andava bem morna, é verdade, mas nada excepcionalmente fora da média. Depois de nove anos juntos já não existe razão para desespero nesse quesito, e nem mesmo a obrigação de apresentar o desempenho – de todo modo falso – de um ator de filme pornô. E, afora isso, tudo parecia estar devidamente calmo até um dia em que, pouco depois da promoção, Alice quis ter essa estranha conversa. Pediu que ele a pegasse no hospital e fossem jantar fora, e diante de todos os argumentos e questionamentos, manteve-se vaga, mas irredutível.

Dias depois, com o orgulho um tanto ferido e diante de um ambiente doméstico pouco amigável, ele resolveu ir para um hotel ainda esperando que as coisas voltassem à normalidade. Só que a única explicação adicional que lhe chegou veio sob a forma de um mandado de citação, estabelecendo a data e o horário para a audiência de divórcio. E isso lhe fez ter certeza de que havia outro cara na parada. Revoltado, não pensou bem e usou um defensor público pouco preocupado em fazer valer a justiça. E o resultado de tudo parecia agora atingir seu ápice, com os solavancos do ônibus na decadente malha viária urbana e umas rodelas de suor a se formar em suas axilas. Tudo isso testemunhado por três passageiros aparentemente alheios a todas as dores do mundo e por um trocador que, naquele exato momento, deixava escorrer um fio de baba pelo queixo.

Mas já fazia quase um mês e não convinha pensar mais naquilo. O lance era só estar psicologicamente preparado para o tribunal de inquisição que o aguardava, nesse primeiro almoço em família após tantos anos de casamento. Mesmo assim não quis ensaiar nada. O momento traria as respostas, então o melhor a fazer era tentar curtir o dia que, apesar de tudo, insistia em parecer bonito lá fora.

Desceu próximo à casa de seus velhos e caminhou apressado o trajeto que faltava, pensando na mãe rabugenta por alguns minutos de atraso. Em frente ao portão ajeitou com a mão os cabelos um pouco desalinhados e certificou-se de não estar com o hálito cheirando a cigarro. Só então tocou a campainha e aguardou, observando que a pintura da fachada estava começando a descascar.

“Se atrasou hoje, heim rapaz?”, a voz do pai soou, tilintando as chaves em sua mão.

“Pois é… Tive alguns imprevistos”, respondeu Mathias, o enfado já lhe vindo, galopante.

“Vamos, entre. Lá dentro conversamos melhor”, continuou o pai em um abraço que reprimia o entusiasmo. “Sua mãe já está impaciente. Quase come antes de você chegar. Você sabe como ela é!”

Esperou que o pai trancasse o portão da frente e o conduzisse pela casa, passando pela sala, atravessando os corredores, e chegassem à cozinha. A mãe, ainda com o velho avental que cobria parte de seu vestido azul, já tinha terminado de pôr a mesa, e esperava agora pelo seu abraço. Antes de recebê-lo, comentou algo sobre o atraso também, em um tom indefinidamente situado entre a mera observação e a severa repreensão. Depois sentaram-se para comer, os três.

“A maninha não vem hoje?”, perguntou Mathias estranhando a ausência da irmã, do seu marido e dos três meninos.

“Você não está sabendo não?”, respondeu o pai. “Eles estão viajando pra Curitiba. A Ana foi passar uns dias com a mãe do Marcel. Ela vai fazer uma cirurgia. A saúde dela piorou muito nos últimos dias.”

“Cirurgia pra tirar pedra dos rins”, continuou a mãe com gravidade, emendando em detalhes pouco recomendáveis numa mesa. Mathias automaticamente entrou em stand-by.

“As almondegas estão muito gostosas, mãe”, ele comentou após alguns minutos de silêncio. O tema do divórcio parecia flutuar por cima das panelas fumegantes. “A salada também está ótima.”

“Pois é, e eu coloquei alcaparras na salada pensando na Alice. Eu sei que ela gosta. Só depois é que eu lembrei que ela não vem mais”.

“Pois é”, Mathias tentou não parecer lacônico.

“Quantos anos vocês ficaram casados”, insistiu a mãe. “Dez”?

“Quase… quase isso”, ele fez de conta que calculava mentalmente. “Pouco mais de nove anos”. Ele sabia que foram exatamente nove anos, sete meses e dezesseis dias.

“É uma pena tudo isso”, disse o pai com a boca um pouco cheia. “Foram muitos anos com ela aqui, junto com a gente. Parece que tá faltando alguém.”

“Pois é”, definitivamente não tinha como não ser lacônico.

“E por que vocês decidiram se divorciar?”, a mãe queria algo mais. Ela arrancaria algo mais. “Quem pediu o divórcio?”

“Ah, desgaste natural. Muito tempo juntos já, e ela tem uns projetos próprios, que ela quer tocar adiante”. Mathias esperava ser o suficiente. Não seria.

“Foi ela que pediu o divórcio?”, continuou a mãe, já limpando os lábios no guardanapo. Nunca seria o suficiente.

“Não. Fui eu”, mentiu sem muita convicção. “O problema nunca foi ela. Sempre fui eu”.

“Espero que você não se arrependa”, disse o pai. “Ela era uma menina muito boa”, seus olhos eram de reprovação. “Vai ser difícil você encontrar outra igual a ela”.

“Pois é”, Mathias começava a se sentir um idiota entoando um mantra.

A mãe se levantou, e começou a recolher os pratos e os talheres. Depois desapareceu pela porta que dava acesso à cozinha. Dava para ouvir o barulho da água caindo na pia, enquanto ela lavava a louça. Mathias pensou ter ouvido o choro abafado dela.

“Vamos conversar lá na varanda, enquanto tomamos café”, convidou o pai. Mathias, bovino, não protestou. Levaram dois copos americanos e a garrafa térmica preta, ancestral, um presente antigo de Alice.

“O dia está bonito hoje”, Mathias comentou. “E apesar do sol, aqui fora tá bem fresco”. Queria aproveitar a mudança de cenário e quebrar o assunto. Como nos filmes.

“Você não traiu a Alice não, né?”, continuou o pai, que não entendia de cinema.

“Jesus, pai! De onde veio essa ideia?”, ele aparentava indignação. “Claro que não! Que pergunta!”

“Sei lá, você nunca teve muito juízo. Sempre fez burradas na vida.” Lá vinha a culpa e, por consequência, o castigo. “Sua mãe está muito desapontada com você. Com isso tudo. O único consolo que ela tem é que vocês não tiveram filhos, porque eles são os que mais sofrem com a falta de juízo dos pais”.

“Não foi nada, pai. Foi amigável, consensual. Apenas projetos de vida e caminhos diferentes. Em algum momento iria acabar.”

O pai fez um muxoxo qualquer, desdenhoso e pouco convencido.

“Além disso, eu deixei tudo pra ela. A casa, algum dinheiro e o carro”. Ele agora quase acreditava em si mesmo. “Eu cheguei atrasado para o almoço hoje porque precisei vir de ônibus. Ainda não tive tempo pra comprar outro carro.”

“Pelo menos isso você aprendeu, filho. Homem decente não deixa a mulher na mão quando quer sair do casamento.”

“Pois é, pai. Eu sei disso. Posso meter os pés pelas mãos aqui e ali, mas aprendi a ter decência com o senhor.” Massagear o ego do outro é essencial quando se quer vencer uma discussão. “Não ia deixar ela na pior agora, nesse momento difícil.”

“Obrigado, filho, por não envergonhar ainda mais a família. Por ter decência, apesar de tudo”, o pai parecia verdadeiramente grato, mesmo triste.

“Ok, pai. Dá aqui um abraço”, Mathias sentiu a pele flácida, idosa, por baixo das palmas de sua mão. “Agora é reconstruir tudo de novo. Batalhar outra casa, outro carro, enfim. Apesar da crise no país, eu tenho fé que vou conseguir.”

“Eu espero que sim, filho. Eu e sua mãe vamos continuar torcendo pra que você seja feliz. E o país vai sair da crise daqui há pouco. O Brasil é um país forte, rico e não tem terremoto.”

Mathias olhou fixamente para os olhos do pai, tentando entender o sentido daquilo. “Pois é”, foi só o que conseguiu dizer.

“Só pra encerrar esse assunto: vê se cria um pouco de juízo, tá filho?” arrematou o pai, sempre o homem da última palavra. O homem da razão. Mathias balançou positivamente a cabeça e pelo resto da tarde conversaram amenidades. Às seis da tarde ele disse que precisava voltar. Precisava botar ração e água pro Al Capone. E descansar. Afinal, amanhã era segunda-feira.

Foi se despedir da mãe, e ela trouxe alguma coisa embrulhada numa pequena sacola de tecido. “Coloquei um pouco de comida pra você levar. Pra você jantar”, ela disse. “E desculpe sua mãe por não ter te dado tanta atenção hoje. Ainda sinto muita saudade da Alice.”

Mathias abraçou e beijou seus velhos prometendo voltar no quarto domingo do próximo mês, como de costume. Depois ganhou a rua e fumou três cigarros em seguida, antes de voltar pra casa. De dentro do ônibus, foi observando a cidade, seus contrastes e suas contradições que anoiteciam. Colocou comida para o cachorro e conferiu sua água, que parecia intacta. Tomou um banho quente e comeu almondegas com salada enquanto assistia ao telejornal. Quando terminou o noticiário, com todas as suas notícias estranhas, assustadoras, Mathias desligou a TV e foi escovar os dentes. Diante do espelho, enfim compreendeu tudo.

Apagou a luz, se enfiou debaixo das cobertas e sonhou com Alice. Do lado de fora, deitado próximo à porta que dava acesso ao quintal, Al Capone mantinha-se alerta. Com o torso de encontro ao chão, ele sentia os mínimos tremores da terra, cada ínfima vibração imperceptível aos sentidos do homem.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.

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