O fabuloso dia do Sr. H.

O fabuloso dia do Sr. H.

Acordou às seis da manhã com sua honestidade

insuspeita e desceu as escadas de seu reino

fazendo ranger as tábuas sob o peso

de suas meias antiquíssimas.

O dia se insinuava muito perfeito para homens

tão tortos, e sentindo purgar seus pecados,

queimou propositalmente a língua com

grandes goles de café amargo.

Lustrou as botas com zelo e encerejou-se com o

mais apropriado de seus chapéus, deixando

para trás sementes de girassol ignoráveis

pelos tucanos do seu quintal.

Altivo, com tanto e tudo sob controle, fechou

a porta sabendo com precisão o que seria,

em essência, o restante do seu dia:

mais um dentre tantos fabulosos.

Atravessou a cidade com as mãos recurvadas,

como um falcão que carrega sua presa,

e pensou que o mundo seria melhor

se mais gente ouvisse Verdi.

Era quase indecente, senão imoral,

que tantos ignorassem tal nobre arte

mas não toda essa merda

dissabores tão artificiais.

Tropeçou algumas vezes, mas manteve-se

inquebrável com o suor a luzir-lhe a testa

nessas ruas tão mal cuidadas pela

péssima administração municipal.

Disse alguns impropérios aos garotos de hoje

que lhe acertaram, risonhos, uma bola

e à puta que da janela do casario

outra vez lhe gracejou.

Amaldiçoou os isqueiros por não terem gás eterno

e taxou de insossos os cigarros de filtro branco,

mas comprou mais deles e se resolveu com

uma caixa de fósforos molhadíssimos.

Comeu num lugar modesto uma comida espartana,

com pouco tempero pelo que lhe cobraram,

e queimou mais um pouco a língua,

dessa vez com café açucarado.

Adquiriu em farmácias algumas pílulas fundamentais

e contando moedas pagou as últimas contas do mês,

que eram por fim a luz, a TV, a água

e o que restava do armazém.

Após atravessar em reverso a cidade no entardecer,

deixou as chaves junto ao retrato da finada mulher

e jantou sopa de batata com frango aos fios,

vinho e um pão com azeite extra virgem.

Por fim, após se banhar e cortar as unhas dos pés,

foi dormir sentindo-se digníssimo e sonhou

com a puta fumando cigarros brancos sujos

de um batom vermelhíssimo.

E que suado e venturoso lhe comia ao som

de uma música ordinária, indiferente aos

meninos que na rua jogavam bola,

safadíssimo.

Amanhã, quando acordar sacrílego,

será imperativo solicitar

um perdão

adeus.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.