O interior

O interior

Quando avistou outra vez a capital, quase perdida na parte baixa da serra iluminada pelo sol, o trânsito estava relativamente leve, talvez pela hora morta do domingo. Abriu então um pouco a janela do carro e inspirou profundamente, a simples lembrança do cheiro da metrópole, de monóxido de carbono, já lhe trazendo algum alívio. Era óbvio que sentia os músculos contraídos, os ombros acusando algum cansaço pela longa viagem feita sem nenhuma parada. Mas ainda assim, não se lembrava de ter se sentido tão bem nos últimos três dias.

Ao seu lado, com os pés apoiados no painel, Leonor dormia alheia ao movimento da estrada, indiferente aos arranha-céus que, divisíveis no horizonte, rapidamente se aproximavam. Aquilo era algo que deixava Inácio um pouco irritado, essa coisa de sua mulher dormir o tempo todo ao longo do trajeto. Era como se ela ignorasse, por alguma razão, todas as paisagens que ele mesmo não podia se dar ao luxo de apreciar, sempre atento aos riscos iminentes da rodovia. Em última instância, um desperdício de vistas e de cenários, ambos existindo em suspensão, sem qualquer mútua necessidade.

Às vezes isso lhe deixava também entediado e sonolento por não ter com quem conversar. Sobretudo quando as estações de rádio se tornavam imprecisas ou simplesmente insuportáveis, algo que acontecia com relativa frequência. Nesses momentos ele sempre prometia a si mesmo arrumar novos CDs para deixar no carro, os hits do momento excessivamente descartáveis, ele já meio enjoado das velhas canções de rock. Não obstante, isso nunca acontecia.

De todo modo, quando começou a tocar Is it Any Wonder?, ele terminou de baixar o vidro do motorista e, com alguma dificuldade, acendeu um cigarro. Não estava necessariamente com vontade de fumar, e na verdade vinha a algum tempo se sentindo culpado por esse vício. A morte recente de um tio, precocemente carcomido por um câncer na laringe, lhe fazia pensar nos filhos que, apesar de tudo, ainda esperava ter. Mesmo assim, tragou e sentiu a fumaça morna lhe preencher os pulmões no exato instante em que um pesado Porsche, aristocrático e apressado, lhe piscou os faróis pedindo passagem. Resignado, ele apenas deu seta para a direita e assumiu a pista central, pensando que provavelmente nunca conheceria a sensação de guiar um automóvel daqueles.

Mas esse pensamento durou um segundo apenas e logo desapareceu, o peito pouco a pouco se desanuviando com a chegada da cidade que, gradativamente, se concretizava. Inicialmente a periferia, sua precariedade como que milagrosamente equilibrada nas encostas em toda sua pobreza estrutural. Depois, lentamente, o centro com seus problemas e semáforos intermináveis, seus prédios cinzentos e pichados. Só mais adiante, sem pressa, as malhas residenciais se descortinavam, geograficamente hierarquizadas conforme a renda de seus habitantes, todo um vasto campo de possibilidades ocupado por pessoas de bem. Nesse contexto Inácio avançava cauteloso, ao meio termo, ao seu lugar também tão precariamente equilibrado entre os extremos.

Por sorte, pouco antes de pegar a rua de calçamento rudimentar que apontava para o seu prédio, estreita e de mão única, ele se lembrou de que não tinha nenhuma bebida em casa. Absolutamente nada, algo que subitamente lhe aborreceu. Sempre que voltava de uma viagem, depois de ter encarado os desafios da estrada, costumava se recompor com algumas doses, a pretexto de se livrar da tensão. Por sorte também, apenas a algumas quadras dali, havia o hiper vinte e quatro horas, a voz de Leonor vindo macilenta assim que o freio de mão foi acionado em seu estacionamento.

“Nossa, já estamos chegando em casa… Passou tão rápido!”, Inácio um pouco exasperado por essa observação, de todo modo inútil. “O que você vai comprar no supermercado?”.

Ele virou o rosto em sua direção, a expressão envelhecida pelo cansaço, a boca esponjosa e acostumada ao silêncio.

“Ainda não sei… Acho que só vou pegar umas latas de cerveja”, respondeu sem muito interesse. “Temos alguma comida na geladeira? Digo, algo fácil de preparar?”.

Leonor olhou através dele, como se visualizasse o refrigerador aberto à sua frente, seu conteúdo revelado pela fraca luz do interior. Depois, com os mesmos olhos vazios, passou às prateleiras da despensa.

“Sim… Acho que sim… De todo modo, sempre se pode dar algum jeito.”, respondeu. Inácio tentou sorrir.

“Ok… E você? Quer que eu lhe traga alguma coisa, compre alguma coisa para você?”, indagou.

Ela novamente ficou em silêncio por alguns instantes, talvez tempo demais para alguém que dormira tanto, ou talvez exatamente por isso. De todo modo, tempo demais para quem dirigira por tantas horas. Como que percebendo a tensão, Leonor abriu a boca sem saber exatamente o que dizer.

“Não consigo pensar em nada.”, respondeu relutante. “Pegue só uma garrafa de vinho tinto. Um vinho intermediário, nada muito caro. E seco, por favor.”, concluiu.

Inácio assentiu e abriu a porta, a chave ainda espetada na ignição, do rádio vindo alguma coisa do Oasis, talvez os acordes iniciais de Live Forever.

“Certo, tudo bem… Volto em um minuto.”, falou antes de desaparecer entre os carros estacionados e em meio às pessoas que traziam suas sacolas em punho. Sem muito o que fazer, os dedos de Leonor se voltaram para o celular, as múltiplas mensagens e ligações perdidas chegando de uma só vez, o sinal finalmente reestabelecido. Tirando os quatro telefonemas da mãe, nada parecia muito importante, e mesmo assim tudo aquilo podia esperar.

Quando Inácio voltou, andando com alguma dificuldade, as costas um pouco recurvadas pelo peso das bolsas, notou através do para-brisa a expressão dura da mulher. Seus lábios pareciam tensos, os olhos escuros, todo o rosto crispado por certa gravidade. Droga! Ela vai vir de novo com esse papo de que estou bebendo demais, pensou. Ainda assim, agindo com naturalidade, acomodou como pôde as bebidas no porta-malas e tomou outra vez o assento do motorista, um silêncio estranho pairando entre eles, quase impossível. Por sorte, mais uma vez, o telefone dela tocou, alguém aparentemente querendo saber se haviam feito boa viagem. Uma conversa que se resumiu a si mesma durante aqueles poucos quilômetros finais.

Uma vez aberta a porta do apartamento, malas e sacolas espalhadas pelo chão, se viram os dois às voltas com o entusiasmo da cadela que decerto se julgara abandonada. Afinal, três dias trancada apenas ao som da televisão, nada podia remeter mais ao repúdio. Entre latidos eufóricos, saltos e lambidas desesperadas, constataram ambos o tamanho do estrago, que de todo modo poderia ter sido maior. Uma parte do sofá danificada, algumas almofadas pela metade, um cheiro acre de urina se fazendo presente em todo seu esplendor.

“Droga, Coralina! O que você aprontou, garota?”, a voz de Inácio sem encontrar ao certo seu tom, perdida entre a repreensão e o alívio. “Vamos já arrumar essa bagunça!”.

Duas horas depois, a casa devidamente higienizada, a mulher no banho e a cerveja completamente gelada, ele se sentou no quintal, a noite definitiva começando a chegar. Exposto à ainda escassa luz da lua, com um vento cortante a lhe eriçar a pele, Inácio pôs-se a pensar no que lhe fazia infeliz em seu interior, nas razões pelas quais se sentia assim, obtuso, estranho, incongruente. A cada vez que voltava menos parecia se encontrar ali, como se alguma parte da história se tivesse perdido, como se aquilo um dia nunca lhe tivesse resumido.

Com a cabeça pendente para trás, as costas exercendo pressão contra o espaldar da cadeira plástica, visualizou a placa de boas-vindas, modesta, tímida, quase completamente engolida pela vegetação. A mesma placa que, em seu próprio verso, agradecia a visita e conclamava a um próximo encontro. Fechou os olhos por um instante e enxergou aquelas ruas eternas, imutáveis até em sua própria topografia irregular, detendo-se por alguns minutos diante das fachadas inseguras e malcuidadas, elas mesmas ensimesmadas num silêncio quase fulcral. Isso lhe fez desvelar um pouco as coisas que haviam se dissipado no tempo, os sentimentos confusos, contraditórios.

Com algum pesar pensou na própria fé morta por razões quase insondáveis, a causa mortis enraizada em algum tipo longínquo de hipocrisia. Lembrou-se da ideologia mil vezes lá propalada, de que era possível vencer na vida apenas pelo sacrifício pessoal, um embuste dissolvido pela ácida realidade dos que sofrem a vida toda sem divisar qualquer chance de vitória. Lembrou-se das estórias que lhe contavam, de homens bravos que trucidavam feras agora se definhando em seus leitos de dor e morte, os animais finalmente vingados. Reviu, por fim, os amores ingênuos da adolescência apenas varridos dali, pela potência da riqueza ou de qualquer outra coisa capaz de destruir o amor, esse sentimento quiçá indestrutível. Tudo isso para além da corrupção e da violência intangíveis, da quantidade vertiginosa de sangue lançado ao chão junto aos segredos das alcovas alheias.

Questionou-se, por fim, se tudo aquilo se passava apenas em seu interior e se havia alguma justiça em seu olhar, um exercício de todo modo doloroso a quem revisita coisas já silenciadas. Gradativamente, talvez tenha se dado conta de que essas eram apenas questões da vida, e não consequências lógicas de um determinismo biológico ou geográfico, nem mesmo geológico ou biográfico. Apenas seres tentando, insistindo ou fracassando na busca por alguma forma de redenção, como queiram aqueles que sentem na pele os estertores dessa triste constatação.

Ao final, já entorpecido apenas mirou o céu, as constelações todas muito evidentes como o sono profundo da mulher, apenas o silêncio a lhe chegar aos ouvidos em calmaria. Sentiu-se pequeno, ingrato, mesquinho, mas exatamente justificado por ser quem, de fato, era. Droga! Ele apenas sentia-se bem ali, sozinho, com a pelagem da cachorra a lhe aquecer os pés.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.

4 thoughts to “O interior”

    1. Olá, Matheus Fonseca! Obrigado pela leitura e pelas palavras de incentivo! Peço desculpas pela demora na resposta, mas o Veia Literária apresentou alguns problemas técnicos que só foram resolvidos hoje. Continue acompanhando o blog, e dê sempre sua opinião acerca dos textos! Esse tipo de feedback é fundamental!
      Grande abraço!

  1. Contudo o texto me lembrou Hemingway, talvêz tenha sido pelo simutanismo da leveza das imgens descritas ou quem sabe pelo tédio reflexivo do personagem ou ainda pelo vinho sugerido; no mais, muito bem escrito no mais foi bom ler um texto assim depois de uma noite de embreagues….rs

    1. Olá, Rogis! Muito obrigado pela leitura e pelas considerações. É uma honra que meu texto lhe tenha rememorado o estilo de Ernest Hemingway, um escritor pelo qual tenho grande apreço! Peço desculpas pela demora na resposta, pois o Veia Literária apresentou alguns problemas técnicos e de instabilidade. Mas agora os mesmos já estão solucionados! Continue acompanhando o blog, e tenha certeza de que seu feedback foi de muita valia!
      Grande abraço!

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