Primavera

Primavera

Embora dirigisse há muitos anos, Pavel nunca vira um acidente acontecer. Já passara, obviamente, por carros transformados em lata retorcida e por caminhões consumidos em meio ao fogo voraz. Também já cruzara com ambulâncias guinchando histéricas, no seu quase natural estado de alerta, mas o evento em si, a hora H, tudo aquilo ainda lhe era profundamente incógnito.

E nas primeiras horas daquela manhã, sob a claridade cinza que rompia tímida a pequena janela do banheiro, ele se deu conta de que a sua vida era exatamente aquilo: um acidente consumado sem que ele houvesse presenciado o seu exato momento. Refletido na superfície fina e enferrujada do espelho, afastou o cabelo molhado que lhe cobria os olhos e tentou enxergar nas duas órbitas escuras alguma coisa além de vazio. Talvez uma centelha capaz de trazer, por um instante apenas, alguma dignidade ao seu rosto anguloso, seco. Fitou-se demoradamente, as mãos magras apoiadas na pequena pia absorvendo o frio que lhe eriçou um pouco os pelos do braço, e por fim suspirou. De fato não havia nada. Nenhum ódio, nenhum medo ou qualquer outro tipo de sentimento. Seu acidente era asséptico, sem nenhum corpo agonizando em meio às ferragens.

A barba por fazer, com fios brancos que denunciavam o fluxo do tempo, descia pelo pescoço e lhe tocava o pomo, o único espasmo de vida que se manifestava e apenas enquanto engolia a saliva. Pavel pensou que naquele pequeno relevo talvez estivessem as últimas palavras que faltavam ser ditas, e tentou sorrir um pouco. Mas seus dentes pequenos, amarelos, apenas esboçaram um pequeno traço quase invisível contra o emaranhado denso que lhe escurecia a face.

Correu os olhos e os dedos pelas tatuagens desbotadas que lhe cobriam o peito e desciam pelo lado esquerdo do abdome. Havia um pouco de tudo ali: uma âncora old school, uma serpente devorando a própria cauda, duas cartas de um baralho cigano e uma coruja que espreitava os orifícios de um crânio. Havia ainda um desenho mal feito, lembrança dos tempos de prisão, além dos símbolos de oposição ao regime e que agora, de todo modo, já não faziam qualquer sentido. E estavam lá ainda as velhas cicatrizes, a sombra da carne mutilada pelos carcereiros que toda noite gritavam próximo ao seu rosto. Às vezes Pavel acordava com as têmporas molhadas, a face coberta de saliva e as vistas enevoadas pela viscosidade do sangue. Nessas noites nunca voltava a dormir, mesmo que se lavasse com água fria ou tomasse algumas doses de vodca. Ainda bem, ele pensou, essas noites eram cada vez mais raras.

Apesar da pele pálida e um pouco azulada, ele agora já não se incomodava com o frio do banheiro. Mas enquanto esteve no chuveiro praguejou contra o velho sistema de aquecimento central daquele prédio decadente, algo contra o qual não havia muito que fazer. E do mesmo modo, quando baixou a cabeça e reparou nos pelos pubianos em excesso, o pau pequeno quase perdido em meio aos tufos, decidiu que aquela era uma luta vã. Sem vigor, terminou por esfregar nas axilas um desodorante do tipo roll on, ouvindo apenas os minúsculos estalos dos fios de cabelo que se partiam.

Quando voltou para o quarto, um sistema caótico para ele perfeitamente ordenado, tentou encontrar alguma peça de roupa que ainda não estivesse usada, e após um instante de busca optou por botar as calças do dia anterior e uma camisa de semanas atrás. A malha gasta, preta e de banda de rock, jamais havia sido passada. Por fim, calçou umas botas sem se preocupar com as cores das meias e foi para a cozinha, pensando em algo para comer. Procedeu a um preparo tosco, sem muita higiene, e enquanto mastigava uma fritada rápida de ovos disposta sobre umas fatias de pão dormido, manuseou com dificuldade a carteira com a mão esquerda, à procura de algum dinheiro. Ele sabia que não havia mais nada, mas ainda assim valia a pena tentar, já que por vezes, muito raras, ocorrem obras do acaso. Sem sucesso, e sem também qualquer emoção, terminou pousando os olhos nos pequenos retratos gastos de Irina e Anuva.

Quando Irina lhe deixou, poucos meses depois que ele saiu da prisão, já não existia mais entre os dois qualquer tipo de cumplicidade ou afeição. Conheceram-se nas aulas de filosofia da antiga universidade nacional, mas a paixão dela não resistiu aos anos, de todo modo, perdidos na cadeia. Além disso, sustentar Anuva sozinha ao longo desse tempo drenou Irina em muito do seu espírito e de sua discreta beleza, e Pavel se decepcionou ao reencontrá-la assim, tão apática e envelhecida. Ele também se ressentia do fato de ela não ter ido, uma vez sequer, visita-lo na prisão, algo que lhe fez supor a existência de outro, alguém que significava muito ao ponto de fazê-la se esquecer da promessa de lhe levar livros e cigarros naqueles tempos de solidão. E quando ela se aprontou para ir embora, a mala modesta pela carestia geral, poucas palavras foram ditas ou mesmo necessárias.

Às vezes ele se lembrava de ter, nos dias seguintes e pela última vez, chorado por causa de Anuva e da ausência de seus pequenos olhos curiosamente azuis, algo que subitamente fez do minúsculo apartamento algo inexplicavelmente descomunal. A Pavel, lhe custaram lágrimas o peso de tanto silêncio. Mas o tempo e a falta de notícias, dois remédios amargos de grande eficácia, lhe apagaram completamente a filha da memória, e seu retrato era agora apenas um momento que se foi. Talvez mesmo outro pequeno desastre que jamais devesse ter acontecido, uma espécie de saldo de uma vida vivida sem maiores planos. Assim, apesar do pequeno mimo na carteira, aquela era uma lembrança sobre a qual Pavel, gradativamente, deixou de se debruçar. Certos poços lhe eram profundos e escuros demais, e ele sabia que perscrutá-los apenas consumiria o que ainda restava de lucidez em sua mera condição humana.

Quando decidiu sair, deixando sobre a pia a escassa louça suja de gordura e com o velho casaco já lhe aquecendo os ombros, simplesmente não conseguia encontrar suas malditas chaves. Eram tantas garrafas, livros e cinzeiros que as coisas pareciam apenas sumir, embora depois de um tempo se revelassem ali. Já decidido a arrombar a porta percebeu que ela estava fechada apenas no trinco, e quando desceu as escadas e pisou a primeira neve do inverno, no mesmo instante se esqueceu de tudo o que havia ficado para trás.

Caminhou por muitos quarteirões, as mãos enfiadas nos bolsos e o rosto contorcido contra o vento cortante, o mesmo que sorriu ao encontrar uma ponta fumegante perdida num trecho de relva ainda não engolido pela já quase indivisível planície branca. Pavel tragou com avidez e seguiu mais alguns metros, quando se deteve em frente às vitrines da imensa livraria universal. Respirando próximo ao vidro, a ponta do nariz lhe roçando às vezes, tentava divisar os títulos e seus bem-sucedidos autores, quando sentiu o intestino se contorcer na velha resposta biológica ao primeiro cigarro matinal.

Acerca daquela situação, certamente, algo precisava ser feito com urgência. E com passos apertados, as nádegas contraídas, atravessou a rua e entrou no primeiro café que encontrou. O proprietário, um velho polaco com uma barbicha que lembrava uma boceta por depilar, apenas lhe indicou a porta do banheiro com a cabeça, numa manifestação clara de que emergências intestinais não eram bem vindas ali. Pavel pareceu não se importar, e diante da privada que rescendia a urina limpou como pôde o assento mijado e defecou em abundância, pensando, sem razão aparente, na quantidade de filhos da puta que se dá bem na vida.

Quando teve certeza de que estava confortavelmente vazio, saiu do estabelecimento e fez tilintar a sineta da porta, sentindo em suas costas um par de olhos injetados como quem pressente os tiros de um pelotão. Apenas de sacanagem, fez que se esquecera de acionar a descarga e sentiu-se subitamente justificado. Andou por mais um tempo e quando, enfim, alcançou a ponte Alyosha, tão deserta àquela hora da manhã, observou longamente sua descomunal altura e as águas que lá embaixo corriam com obstinada fúria. Dali era possível apenas adivinhar as pedras escondidas sob a superfície revolta, e Pavel pensou que tudo aquilo seria como um floco de neve que se dilui na agitação fatal. Além de tudo era preciso ter pressa, pois em breve todas as águas, exceto as da companhia de abastecimento, estariam decididamente petrificadas.

Sentindo os olhos marejados, respirou profundamente enquanto o retrato de Anuva lentamente se lhe avivava, uma imagem em preto e branco que, remasterizada, gradualmente se cobria de cor. Numa das pontas da ponte, de todo modo interditada ao tráfego pelo excesso de neve, o carro da patrulha fez girar suas luzes e um bipe agudo atravessou toda a extensão suspensa em uma fração de segundo, como quem vigia a fim de evitar o pior. “Cossacos desgraçados!”, Pavel resmungou entredentes, sua raiva transformada numa bola de saliva que tão logo atingiu o solo desistiu de vencer e também capitulou. Então, subitamente um bando de patos ainda em voo ascendente cobriu momentaneamente o céu, numa confusão ensurdecedora de grasnidos metálicos que gradativamente se afastou, dando origem a uma formação curiosa e exatamente cooperativa.

Pavel fitou demoradamente as aves e pensou na longa trajetória que teriam de percorrer, instintivamente cientes do implacável frio que havia de se prolongar. Elas apenas sabiam que era preciso escapar, evitar os predadores e encontrar algum lugar razoável onde fosse possível comer e se reproduzir. Em última instância, um ato fundamental de resistência e autopreservação. Quando baixou a cabeça, com o olhar já seco e obstinado, divisou o casaco negro dos guardas que corriam em sua direção. Por algum motivo, sentindo o vento frio e as mãos estranhamente úmidas, decidiu se afastar da borda e retomou seu caminho, marchando agora na direção oposta. Os dois homens que o vigiavam diminuíram o passo até a parada completa, aliviados e resfolegantes com as mãos espalmadas sobre os joelhos. Pavel pensou que, de todo modo, eles jamais teriam lhe alcançado, com aqueles ventres flácidos e o peso de tantas armas. Mas ainda assim, pensando nos pássaros e, estranhamente, em Anuva, sorriu à espera da coragem, que talvez lhe venha na próxima estação.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.