Recomeço

Recomeço

Só hoje notei que

as cadeiras já estão bambas

e que a lâmpada do quintal,

de súbito, em algum

momento morreu.

Percebi que a gaveta não

mais fecha sua boca nem

esconde sua língua seca

de sem salivar,

e que vilancetes e madrigais

(ou mesmo rondós e haicais)

por ora não fazem sentido.

Através do vidro canelado

vi que os carros, moto

contínuo, levam ainda

motoristas tristes e fumantes

mastigados pela presteza

dos rádio jornais,

e que agora pela fresta

já não chega nenhuma luz.

Nesse final de exílio morto,

científico e filosófico meu

próprio corpo, me diz

que se faz necessário amanhã

já de antemão erigir o céu.

Alexandre Ladeira

Sociólogo e professor por profissão, o autor desse blog sente pela literatura algo inescapável. Leitor apaixonado, escreve desde a infância sempre às sombras das gavetas ou apenas aos olhos das pessoas mais íntimas. Com o Veia, o pai do pequeno Pablo espera ir além, na esperança de que seu texto alcance um público mais amplo. Sem qualquer pretensão, almeja conciliar a sua necessidade pela escrita com a possibilidade de tocar outros corações e mentes igualmente apaixonados pelo universo literário e pelos múltiplos sentidos dessa forma de expressão.